segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma reconciliação


Frente
Costas
Detalhe da borboleta com continhas
Final de semana passada, após ver a evolução do trabalho da Gis com os girassóis do Van Gogh, me deu uma vontadezinha de fazer alguma coisa em ponto cruz, mas algo bem sutil, tal como um recomeço. Aproveitando o momento de bordar coisinhas pequenas e delicadas para os marcadores de página, ocorreu-me que o ponto cruz cairia bem e que a personalização poderia ser materializada com a inicial do nome do presenteado.

Comecei a bordar um “A” de um monograma que traz pequenas borboletas incrustadas. O resultado foi tão bom que me deu vontade de bordar o alfabeto inteiro. A java para ponto cruz marfim ficou bem com os tecidos estampados da parte de trás e, com a prática, costurei dois marcadores rapidamente. O marcador com “A” foi dado de presente pelo Rafael para a Tia Ale. O segundo marcador, com o bordado de um grande lápis vermelho, foi presenteado à Tia Marilac. Esta recebeu ainda, por conta do seu aniversário no domingo anterior, a toalha marfim bordada em crivo. Fiz uma embalagem em forma de bombom (tks, Gis!;-) ) que o Rafa achou bem engraçada.

Infelizmente não tirei as fotos destes dois primeiros marcadores... Mas a série continua, com as letras das pessoas que eu pretendo presentear. Estou gostando bastante de bordar rapidamente o monograma e já usei cores diferentes para as borboletas. Imagino que seja uma boa opção para as lembrancinhas de final de ano ou de páscoa.

Como pensar nunca é demais, vamos mais uma vez extrapolar as fronteiras do prosaico. A irredutibilidade é completamente “over”. Passei um longo tempo sendo absolutamente inflexível com relação ao ponto cruz e eis que me vejo bordando cruzinhas novamente e, melhor, adorando! Como tudo o mais na vida, o segredo está na intensidade. Nem todo mundo (eu incluída) sentirá prazer nos trabalhos extremos em ponto cruz, aqueles bem desafiadores, mas isto não significa ter que abrir mão do prazer dos bordados breves, fugazes.

Na minha busca pelo equilíbrio, pelo caminho do meio – que passa pela alimentação, pela relação com o trabalho, com as pessoas, etc. – não havia mais espaço para o “nunca”. Fui inflexível tempo demais. Assim, em processo de reconciliação com o ponto cruz, com o meu corpo, com a minha saúde, com os meus relacionamentos, com o meu tempo, fico mais inteira e coerente.

Diante das vicissitudes da vida, tento seguir o exemplo da Aninha que certa feita me respondeu: “Sei que o caminho é em frente e a ordem da vida é: enfrente!”. Aninha também tem me ensinado a importância das “diversões da alma”.

Este blog é uma grande alegria para a minha alma, assim como todos os trabalhos que tenho feito o são. Cada um de nós tem sua receita.

Com que diversões você tem presenteado sua alma? Às vezes não sobra tempo e, desatentos, não percebemos que a rotina passou seu rolo compressor sobre sonhos, projetos, idéias, pequenos hábitos que humanizavam o dia-a-dia. O que fica não é muito mais que um bagaço espremido...

domingo, 15 de agosto de 2010

“Desdetalhado”

Meu filho mais velho saiu com esta belíssima expressão dia desses de manhãzinha: “Aquele modelo era mais feio, mãe... assim... desdetalhado!”. Depois de controlar a crise de riso, achei que o neologismo do Gui fazia todo sentido: a beleza realmente está nos detalhes. E foi por causa de alguns detalhes que este post foi escrito.

Depois de constatar que estou sempre escrevendo para as paredes e cansada de ouvir as pessoas dizerem: “Tentei entrar em teu blog, mas como é mesmo o nome?”, “Não consegui localizar teu blog no google, tá acontecendo algum problema?”, resolvi tomar algumas atitudes mais práticas e criar mecanismos para facilitar a vida das pessoinhas mais esquecidas.

Comecei a matutar sobre como ter algo rápido e bacana para quando eu falar sobre o meu blog e pensei num cartão de visitas. Comecei a fazer alguns layouts, mas desisti ao lembrar de todos os cartões que já recebi e foram ficando pelas gavetas, dentro de bolsas ou simplesmente jogados no lixo. Ocorreu-me que meu “lembrete” deveria ter alguma utilidade. Foi então que começou a saga do marca página.

Pesquisei vários modelos na internet e rabisquei alguns modelos no meu moleskine, tentando integrar a informação sobre o blog a alguns detalhes que remetessem ao bordado. Deu super certo no papel e mega errado na prática: fiasco total!

Nova pesquisa e uma decisão: fazer todo em tecido, com a parte da frente em java para vagonite e a parte de trás em tecido estampado, com um pequeno bolsinho que pode servir para guardar lápis e no qual vou colocar o lembrete com o nome do blog. O detalhe residirá no bordado.

Enquanto isso, dois eventos envolvendo amigos acabaram por me mostrar a importância dos detalhes.

No primeiro, uma amiga querida entristecida pelo câncer generalizado de uma irmã e a insanidade da mãe, esboça breves sorrisos, num café da manhã para espairecermos da amnésia que é a vida.

No segundo, nos encontramos para a despedida de um dos nossos, que parte para alçar outros vôos. Cada um que falou relembrou fragmentos de histórias e recebeu, como réplica, um presente do que se vai: a descrição dos momentos mais preciosos que levaria consigo. Detalhes de todos e de cada um.

O que é a amizade se não uma seqüência de detalhes com os quais tentamos tornar a vida mais bonita? Os fracassos ocasionais, a finitude, a partida dos que queremos bem: detalhes dolorosos que nos ajudam a não esquecer o valor de recomeçar, a importância de aceitar e o poder da amizade.

Eu não ia querer mesmo uma vida assim “desdetalhada”.

Capas de Garrafão Reloaded: Folclore

A saga das capas de garrafão continua, a despeito de tudo, inabalável, tal qual novela mexicana. Terminado o projeto dos capotes da Nathália, estão na fila as pimentas chilli da D. Ana e flores para a Lenis (quase perdendo para pássaros, em homenagem ao Juvenal, papagaio dela). Meu apreço por capas de garrafão sofreu críticas duras, mas eu fiz “ouvido de mercador”. “Eu poderia estar roubando, matando, mas estou aqui, fazendo capas de garrafão bordadas pros amigos”, respondi em várias ocasiões. Rsrsrsrsrsrs

Não quero saber por qual meio, quero apenas expressar as múltiplas possibilidades do bordado e permitir a quem ganha um presente compartilhar um pouco do carinho que dediquei naquela peça.

Por exemplo: a professora da Rafinha, Tia Marilac, faz aniversário em agosto, mesmo mês dele, e já informou: “É no Dia do Folclore!”. Na hora, pensando sobre que presente dar, lembrei do projeto em andamento, a toalha marfim, na qual tento reproduzir o bordado que parece Rechilieu, como uma boa opção.

Òbvio que seria mais divertido se eu tivesse fazendo algo que representasse os personagens mais famosos de nosso folclore... Mas numa rápida pesquisa na internet, descobri que o folclore pode ser definido como “...o conjunto de todas as tradições, lendas e crenças de um país e pode ser percebido na alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de uma nação”. (Fonte: http://www.velhosamigos.com.br/DatasEspeciais/diafolclore4.html)

Num país tão rico em festas, folguedos e, claro, folclore, nascer no dia 22 de Agosto é quase como nascer no Dia da Cultura e nosso artesanato acaba por ser uma parte de nosso folclore, concordam? Assim, se tudo correr bem, Tia Marilac receberá um presente personalizado, feito com o mesmo carinho que a une a mim e ao Rafa.

Sei que nem todo mundo tem tempo, disposição, vontade para os trabalhos manuais. Mas sonho com o tempo em que todos tenham mais tempo para a delicadeza das relações, para lutar contra a mercantilização do afeto e a massificação da subjetividade. Às vezes parecemos todos mulas sem cabeça correndo de um lado pro outro, sem saber direito o que procuramos nessa vida...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As pequenas vilanias do cotidiano e a morte da gentileza

Meu tio Severino acaba de morrer. Como em tantas famílias, na minha ele era um tio distante, que eu via ocasionalmente quando visitava meus pais, na pequena cidade onde nasci. Estava sempre à sombra de sua esposa, mulher forte e aguerrida, esteio da família. Ele era um cordato, uma pessoa gentil. Não me lembro de uma ocasião sequer em que tenha ouvido sua voz uma oitava mais alta. No telefonema no qual minha mãe me contou sobre seu falecimento, o choro lamentava a perda de uma pessoa querida. E eu, no meio do engarrafamento das oito da manhã, quedei pensando sobre a falta que pode fazer uma pessoa cordata no mundo. O que ele deixou? Filhos, netos, bisnetos. Não deixou bens, feitos, nome de praça ou de rua. Não construiu um império, sequer uma pequena empresa. Não sei bem em que trabalhou ao longo da vida, talvez um homem da terra. Na verdade, não sei muito sobre sua história. Talvez as pessoas com as quais conviveu mostrassem aspectos diversos. Que pequenas vilanias teria cometido ao longo da vida? Foi mesquinho, tirano? Seria sua gentileza fruto do amadurecimento de uma personalidade dura e autoritária ou uma espécie de fardo da resignação do qual sofreu a vida inteira? Tarde demais para especular. Morreu um cordato e no meio do engarrafamento essa qualidade nunca me pareceu tão necessária. A gentileza de dar passagem a alguém no trânsito é recebida quase com descrédito pelo beneficiado, com um riso de agradecimento culpado ou o polegar levantado como uma promessa: também vou fazer isso de uma próxima. Tio Severino dirigia? Não sei. Só sei que num mundo em que se mata e morre por status, poder, fama, para não dar passagem no trânsito ou por não se importar com quem anda nas ruas, sua existência fez um enorme sentido. Boa passagem, tio.

domingo, 8 de agosto de 2010

Um certo Van Gogh


Estes são os girassóis do Van Gogh, que a Gis tá bordando. Já pedi mil vezes prá ela escrever um post, comentando sua experiência e as dificuldades de reproduzir uma obra de arte por meio do bordado, mas nada!

Foi exatamente na tentativa de reproduzir este gráfico que eu e o ponto cruz nos divorciamos. Desisti antes de chegar nas flores, mas a Gis vai realizar este sonho antigo. O mesmo quadro pode ser visto prontinho no site da Edidene.

Feliz Dia dos Pais!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Bordado levado ao extremo



Sábado à noitinha fomos visitar a Feira de Artesanato do Ceart, no Centro Dragão do Mar (para os que não são do Ceará, este é um dos nossos cartões postais, um espaço de lazer e cultura na famosa Praia de Iracema, em Fortaleza). Eu adoro feiras de artesanato! Daquelas “pé de chinelo” às internacionais. O que vejo nas feiras de artesanato, em todos os países, é a expressão da cultura local, exemplos da criatividade das pessoas e os novos usos de materiais e técnicas, muito mais que os meros artefatos à venda.

A feira reuniu artesãos de vários locais do Estado e estava muito rica. Peças esculpidas em madeiras, brinquedos (sensação entre os meninos), peças de vestuário, luminárias de resina e escamas (lindíssimas), de cipó, tecidos artesanais, mosaicos e, claro, inúmeros trabalhos em crochê, bordados diversos e pachtwork. Duas constatações que fiz durante a visita acabaram por motivar este post: 1) a quase ausência de peças com utilização de ponto cruz, antes hegemônicas; e 2) o crescimento da oferta de peças com bordados diversos, apliqué e trabalhos em pachtwork.

Uma das artesãs me justificou que as pessoas não “gostavam” mais do ponto cruz. Em que pese a minha visão sobre a técnica, confesso que vinha achando tudo muito lugar comum. As mesmas flores, os mesmos motivos bordados à exaustão e vendidos aos montes talvez tenham esgotado o mercado consumidor.

Conversando depois com a Gis, entusiasta do ponto cruz, sobre a opinião da tal artesã, ela me rebate com o blog Ponto Cruz Levado ao Extremo, da Edidene (http://cruzaoextremo.blogspot.com/) e ficamos ambas boquiabertas. A Edidene, também enjoada das toalhinhas de lavado, resolve se desafiar e borda, em ponto cruz, reproduções de obras de arte famosas: Picasso, Renoir, Cézanne... Borda ainda incríveis fotos e muitos super-heróis! Tive que me render novamente ao ponto cruz que embaralha nossa percepção sobre artesanato e arte.

Na mesma semana, recebo o livro da Trish Burr, Long and Short Stitch Embroidery (http://www.trishburr.co.za/). A técnica apresentada, utilizada na reprodução de flores, beira a perfeição e intitula-se “pintura com agulha”. Utiliza os chamados “long and short stitchs”, que na minha avaliação a partir do Dicionário de Pontos da Lucinda Ganderton que utilizo sempre, pode ser equiparado ao nosso Ponto Matiz. Só que levado ao extremo.

Burr ensina como utilizar o bordado para a reprodução de flores tal qual as pinturas de compêndios de botânica, buscando reproduzir com a maior fidelidade possível a natureza. É quase impossível acreditar que se obtenha profundidade, jogo de luz e sombras e todos os detalhes que podem existir, por exemplo, numa orquídea, com a combinação prosaica de linhas e agulha...

Dias antes, visitando a exposição do Vik Muniz, aqui em Fortaleza, fico mais uma vez embasbacada com os diferentes usos de materiais comuns para expressão da arte. Duas obras da Série Linhas me chamaram a atenção por utilizar linha preta, de diversas espessuras, sobre fundo branco para recriar paisagens bucólicas. Árvores, campos, cercas, pontes. Está tudo lá, no emaranhado de linhas. Os meninos, que visitaram a exposição comigo, adoraram. O extremo da arte de Vik une o grande e o pequeno, assim como os milhares de cruzinhas bordadas pela Edidene formam as frutas de Cézanne ou o rosto de sua avó.

Na feirinha, me encanto com uma toalhinha de lavabo, bordada com ponto caseado sobre o desfiado da barra de bordar. Resolvo compra-la para tentar reproduzir o bordado, que deixa a barra com cara de Rechilieu, muito delicado. Nunca tinha visto a técnica e puxo conversa com a artesã que, pacientemente, me explica como desfiar a quantidade correta de fios para possibilitar o surgimento das flores (veja as fotos). O resultado permite variações a partir da utilização de linhas de cores diferentes.

Saio da feira pensativa. A artesã havia me mostrado outras peças lindas, com a utilização de bordado livre para customizar peças de vestuário, de cozinha, tapetes e bolsas. “Mas tem que bordar pouco em cada peça e não muito cheio, por que senão demora muito... e a gente precisa sobreviver, né?”. É, concordo. Um pouquinho já faz uma enorme diferença. É possível que eu tenha tido sorte e encontrado uma pessoa generosa, que não se importou de dividir comigo sua arte. Prefiro acreditar que existe uma certa cumplicidade entre iguais e o extremo talvez comece e termine no prosaico, na simplicidade.

Imaginei Thish Burr sentada na sala de sua casa na África, pesquisando linhas para as cores de um lírio, a Edidene chegando do trabalho cansada mas ansiosa para terminar o Homem-Aranha do seu pequeno, as alvas toalhinhas de lavabo numa cidadezinha qualquer da região metropolitana de Fortaleza esperando para serem vendidas pela artesã na feirinha, Vik Muniz em Nova York (ou em qualquer lugar do mundo) espalhando o emaranhado de linha preta sobre uma folha de papel em branco e eu, no outro extremo, puxando um fio de pensamento que tenta unir todas estas experiências...

Qualquer tipo de expressão pode nos levar ao extremo, mas às vezes basta um pouquinho de beleza para fazer toda a diferença.
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