domingo, 17 de junho de 2012

Imagens da minha infância


Meu cunhado, André, é um fotógrafo talentoso. Dia desses, me convidou a escrever a um texto que acompanharia fotos suas num concurso. Eu fiquei honrada, evidentemente. As fotos escolhidas por ele compõem uma série intitulada “Farinhada” e foram feitas numa localidade rural, próxima à minha cidade natal.

As fotos me emocionaram e me ajudaram a escrever o texto abaixo por que me remeteram, imediatamente à infância, quando íamos, madrugada adentro, participar das festas em volta da fogueira. Crianças e adultos, o fogo, as estrelas sobre nossa cabeça. Era muito divertido, assustador, bonito, diferente.

Se tiver paciência, leia meu texto, que reproduzo abaixo. E já te respondendo: não, nós não fomos selecionados, ainda que eu ache que as imagens do André merecessem o prêmio...

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“A farinha é trabalho árduo, que greta as faces. O punhado do alimento que sacia a fome,  quando tudo o mais falta, nasce de muitas mãos, de muita labuta, de algumas cantigas e poucos sorrisos.

Sua produção remete a tempos imemoriais. Sentados em volta do fogo, espera-se pacientemente que um dos subprodutos da mandioca asse sobre o forno de barro: as moléculas do beiju engendram um sabor adocicado, quase infantil, que se submete ao alimento que o acompanha tal qual uma mulher que aceita sua sina.

Noites em volta do fogo, depois de dias em volta do forno, onde a farinha torra.




Às mulheres, cabe o delicado trabalho de descascar a mandioca, lavá-la uma, duas, três vezes, quantas vezes sua alvura exigir. A goma, rainha soberana, jaz no fundo da lavagem, pérola a ser descoberta, sabendo que será alimento de desvalidos e ricos.

Aos homens, é exigido da força para arrancar a mandioca do chão à persistência para moê-la, prensa-la, assa-la pacientemente sobre o grande forno. A estes cabe a transformação, erigindo, em sacos de alva farinha, um dos pilares da cultura nordestina, que estará, depois, em pratos pobres e nobres.  

A farinhada é atividade familiar, mas é também negócio, empreitada. É suor, mas também é forró. É cansaço, mas também encontro. É morte, mas também é vida, Severina.” 


                                                                          ****
Bom domingo!



7 comentários:

Rita Vania disse...

Deu vontade de voltar no tempo!! Lindo Simone, bjs

Atelier Caseiro disse...

Uma realidade diferente da que temos aqui no Sul, mas sem dúvida alguma, linda! Trabalho, seja qual for, sempre é nobre!

Rebeca disse...

Denuncio uma injustiça: vcs deveriam ter ganho!!!!
Bjs

Valma disse...

sure the pictures were deserving the award...and your text too !!
it was is if I was sitting by the fire and seeing (and smelling ! ) the scene by myself
your brother makes beautiful pictures
bravo to you both =)
big hugs
xxxx

♥ Nia disse...

Gostei!! Obrigada por partilhares connosco :)

Isabella Morais disse...

Égua mana, (como dizem os paraenses) tu escreves bonito mesmo!

Adore3i as fts!

Rita disse...

Gostei mto..já tinha percebido mas agora comprovo..tens o dom da palavra :)
Fotos lindissimas :)
beijinhos

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