quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Uma exposição e o significado de “estupendo”


Meus filhos herdaram de mim um gosto incomum por palavras. Ambos utilizam o vocabulário de maneira muito particular para expressar seus sentimentos: o Gui, mais comedido, quer saber o significado de tudo ou a tradução para outras línguas; o Rafa, mais solar, ao ver qualquer diálogo iniciado, acha que se omitir é pecado mortal e tem sempre uma opinião na ponta da língua ou o indefectível “deixa eu falar!”.

Ontem, eu e o Gui conversávamos sobre a beleza das palavras. “Qual a palavra que tu acha mais bonita, mãe?” “Ah, filho, existem tantas palavras legais... por exemplo: ignóbil.” Espanto. “O que é isso?” “É o mesmo que burro, filho.” “Ah, ta...” (Aqui, cabe uma explicação: dei uma forçada no significado literal da palavra para aproxima-la da compreensão dele, que tem seis anos apenas. Como eu explicaria como é ser “sem nobreza ou abjeto” para o Gui?? Ficou pra próxima...)

E continuamos: “E você, meu filho, qual sua palavra preferida?” De bate pronto: “Estupendo”. Levei alguns segundos para me recuperar. Que palavra sensacional! Como a usamos pouco! Admirei profundamente o meu pequeno naquele momento. “Eu gosto muito de esplendido”, falei, não sem certa timidez. “O que é esplendido?” Ele quis saber. “O mesmo que estupendo, oras!” Satisfeito com a explicação, correu pros seus brinquedos e nem me deu chance de comentar que ambas as palavras eram “irmãs” de uma das palavras preferidas do meu pai, a bela “formidável”...

No sábado, visitei a exposição Traço Ponto Arte, que sintetiza o encontro feliz dos artistas plásticos Wilson Neto (http://www.wilsonneto.com/wn/) e Vera Dessart. Ele, dono do traço e das tintas, ela, senhora das linhas e cores, criaram juntos treze telas que unem, de uma maneira muito delicada, a pintura e o bordado, em suas diversas expressões.
A obra que mais gostei: "Amigos"

Eu fico extasiada quando vejo o bordado alinhar-se a outras formas de expressão artística, em altíssimo nível, como nesta exposição. Penso que a visão utilitária que a maioria das pessoas tem do bordado contribuiu para que este perdesse, ao longo do tempo, a capacidade de ser valorizado como arte per si. Nada contra decorar nossas casas com capas de almofadas, fronhas e colchas. No entanto, é formidável perceber que o bordado pode ser mais que seus diversos usos. É arte, expressão da cultura dos povos desde tempos imemoriais e, nele, podemos nos reconhecer e nos transcender.

O trabalho dos dois artistas me emocionou demais. Fiquei feliz por longas horas. Quando comentei com amigos sobre a felicidade que sentira, havia uma única palavra para resumir a exposição: estupenda. Obrigada, Gui.

2 comentários:

Karine de Izquierdo disse...

Mony, estupendo é esse seu texto!!! Delicioso!!!
Beijos, Karine.

Simone Arrais disse...

É que as histórias dos filhos da gente ajudam... Você o saberá em breve! rsrsrsrsrs Bjs e obrigada pela companhia dos comentários. Eles me animam a prosseguir.

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