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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sarah, a Bailarina




Quando o pacote da Andréa chegou às minhas mãos eu tive um pequeno frisson. Sabe aquele momento em que você hesita antes de abrir um pacote, uma carta, com medo de não conseguir saber direito como aproveitar cada mísero fragmento de felicidade?!

No pacote, uma linda boneca, confeccionada com pontos de amor e carinho PARA MIM.

Em casa, procurei o meu “tabelião particular”, o Senhor Rafael que, entre outras incumbências tem a de nomear pessoas e animais, animados e inanimados, que habitam conosco. “Olha só, Rafa, Sofia ganhou uma irmã que vai morar com a gente. Que nome vamos dar à ela?”




Depois de pensar um pouco, ele dispara: “Ah, mãe, entendi... Ela ta assim de olhos fechados por ela ta dançando e gostando muuuuiiiittttooooo...” (Os olhos fechados da boneca pareceram incomodá-lo um pouquinho...).

“Dançando?!?”




“Sim, é a Sarah, a Bailarina, olha só!” - piruetas, sissones, vôos inimagináveis, a pobre Sarah trocou muito de sua dignidade de boneca recém-costurada pelo calor dos abraços e a maciez daquelas mãozinhas...




Sarah já confraterniza com Ricardo, o elefante, Alice, a girafa, Eduardo, o tiranossauro e a veterana Sofia, a fadinha de pescoço molenga, mas de inspiração Tilda.

O clima anda a aborrecê-la um pouco, ainda tenta acostumar-se com o nosso calor nordestino. Se sente saudades do Paraná? Sim, claro! Mas encontrou em sua nova residência algo de familiar: um enorme coração num corpinho de menino e os olhos compassivos de outra mãe apaixonada.




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012




Eu comecei a usar o Facebook com muita cautela... Primeiro, por que tenho muita vergonha alheia, acho algumas exposições demasiadas. Depois, por que temos a fantasia de que o mundo virtual preenche determinados requisitos que o mundo real não consegue e, normalmente, as decepções são imensas ao constatarmos que isso é ilusão.

Assim, de vez em quando, faço o saudável movimento de bloquear pessoas que me “solicitaram amizade” (isso por si só já é bem estranho!) e que, ou não interagiram comigo de jeito nenhum (qual o sentido de serem meus “amigos”?), ou me aborreceram com seus posts inadequados, chatos, ofensivos, etc, etc, etc.

Mas estou me alongando nessa lengalenga sobre o Facebook e deixando de falar de uma das coisas mais bacanas das redes sociais que é a mobilização. E foi em torno de uma causa social – a “reintegração” de um terreno conhecido como Pinheirinho, no interior de São Paulo – que uma mobilização craft aconteceu.

A Andréa convidou um punhado de gente que saiu convidando outras pessoas e rapidamente uma inquietação/indignação da Andréa (e de outros) tomou corpo, forma e atitude: surgiu um esforço nacional para apoiar as crianças que passaram pelo trauma de perderem suas casas com o conforto de um brinquedo handmade, doado por quem quiser ajudar a minimizar os efeitos dessas dores na infância.

Inspirado num exemplo internacional - Dolly Donations - e apoiado sobre seus talentos e disponibilidades, o grupo resolveu ajudar com o “supérfluo indispensável” – o brinquedo, defendido por muitos estudiosos como importante contribuição para a transição/superação da vivência de crises.

Você prefere doar alimentos, remédios, cobertores? Excelente! Vá em frente! Tudo isso é importante e necessário. Nós doaremos o que normalmente é esquecido, relegado a um quinto plano, e que pode fazer brilhar alguns olhos, secar algumas lágrimas, recuperar algum sonho. E isso vale muito a pena, não?



sábado, 2 de abril de 2011

Alice, a Lebre


Desde sempre eu quis ter dois filhos. Quanto ao sexo, confesso que tinha mais inclinação para meninos. Eu achava que seria “mais fácil” que criar meninas... lol Fui abençoada, como sabem, com dois meninos, o Gui e o Rafa.



Um monte de gente me pergunta sobre a “menina”, como se eu ainda não estivesse satisfeita por não ter tido uma. Quando engravidei do Rafael, eu tinha dois nomes de menina e nenhum de menino. Havia pensado em Giovana e Alice. Quando soubemos que seria outro menino, só escolhemos o nome bem no final da gestação.



Decidimos parar “a produção” nos dois meninos. Estou absolutamente satisfeita e realizada como mãe. Por isto mesmo, qual não foi minha surpresa com um sonho que tive este final de semana, no qual eu aparecia gravidíssima de outro menino! O sonho era muito real e mesmo agradável, eu parecia feliz, mas acordei muito aborrecida... E passei o sábado meio mal- humorada e pensativa.


Até que no domingo “pari” Alice, a lebre.



Eu vinha acalentando a idéia de fazer um novo boneco de pano desde a minha estréia – um tanto quanto traumática – com a Sofia. Vocês viram? Se não, dá uma olhada aqui. Bem antes do carnaval comprara uma revista Labores Del Hogar, com lindos coelhos de Páscoa na capa (a revista informava que eram lebres!) e colocara este desafio na minha lista de coisas a fazer.


Comprei o material, li e reli as instruções, mas a vontade/coragem de fazer o boneco não vinha... Até este domingo.


O dia amanheceu chuvoso, não daria praia nem passeio no parque. Os meninos preguiçavam e brincavam... Foi me dando uma inquietação, uma comichão... Comecei às nove da manhã, achando que terminaria tudo ainda de manhã. Bem, levou o domingo inteiro...



Dessa feita, tive mais capricho na confecção do corpo, alinhavando todas as partes antes de costurá-las à máquina. O que deu mais trabalho foram as orelhas que, de acordo com as instruções, deveriam ser reforçadas com arame. Optei por deixa-las molenguinhas mesmo, já que será um presente para uma menininha que poderia se machucar com arames soltos.



A noite já ia alta no céu quando os meninos chegaram com os primos na maior algazarra: “Mãe, tu terminou!!” Toda orgulhosa, apresento uma simpática coelhinha, de carinha um pouco torta, orelhas caindo pelas costas, roupa um pouco mais justa que o adequado, desafio completado. “Meninos, ela precisa de um nome!”, instiguei.



Todos sugeriram nomes legais e outros estapafúrdios, mas foi o Rafa, com seu jeito de oráculo de quatro anos que fechou a questão: “Mãe, o nome dela é Alice!”. E Alice foi “batizada” assim como a Sofia o fora meses antes.



Claro que o Rafa não tem como saber por que o nome, escolhido intuitivamente, estava tão adequado. Na hora, passaram por minha cabeça todas as referências ao maravilhoso “Alice no País das Maravilhas” e a imagem do coelho (seria uma lebre?) correndo apressado e olhando o relógio, levando Alice para lugares nunca dantes imaginados.



Uma lebre/coelhinha chamada Alice é uma idéia engraçada, não é mesmo? Além disso, Alice era o nome que eu colocaria numa filha, se a tivesse tido. A mente da gente é mesmo uma coisa terrível e maravilhosa, concordam? Para lidar com o sonho e com o incômodo causado por este, eu resolvi “parir” uma “filhinha”. Fazer bonecos sempre me abre novos caminhos. Curioso. 


E terapêutico.



domingo, 27 de junho de 2010

Sofia



Semana passada, após o treino na academia, dei uma passada na banca de revistas e comprei uma publicação que ainda não conhecia, Ateliê na TV. A primeira matéria trazia modelos de bonecas de pano que achei bem simpáticos. Eu nunca sequer imaginei ser capaz de fazer bonecas, ainda que tenha tido meus momentos “Victor Valentim” na infância... A revista me chamara a atenção, no entanto, por outros motivos e técnicas. Em casa, mal agüentava a curiosidade de folhear, ler sobre cada execução (alguns me entenderão).

Mas aí começou um processo que passei a chamar de “comichão cerebral”. É como uma coceira, só que mental. Não posso evitar, às vezes me angustia, outras vezes é bom prá danar. E fiquei com a maior vontade de fazer a tal boneca de pano!

- Mas eu não sei fazer bonecas! Extensa pesquisa na internet.

- Mas eu não tenho todo o material necessário! Balela: pistola de cola quente, uns paninhos, linha e agulha? Quem não tem isso?

- E os cabelos, meu Deus? Como é que eu vou fazer com os cabelos da boneca? Besteira: mata dez minutos do horário do trabalho e desvia o caminho para passar naquele armarinho que tem coisas legais...

- E a dissertação do mestrado, como é que fica? (silêncio... e fé em Deus que meu orientador não leia este post...)

Todas as argumentações racionais vencidas, me entreguei ao comichão. Manhã de sexta, dia de jogo do Brasil e eu só queria saber de resolver o problema dos moldes para o corpo e membros da boneca. Como não trabalhei neste dia, boa parte da manhã foi dedicada a aumentar em 100% os desenhos da revista. Moldes prontos, Brasil jogando e eu desbravando um território completamente desconhecido.

Pernas e braços costurados e cortados, de tão compridos, me lembraram um livro maravilhoso da minha adolescência: Papai Pernilongo. Eu também, como a personagem do livro, estava meio órfã: a quem recorrer para esclarecer as dúvidas que o passo a passo da revista não resolvia? Enquanto isso, os meninos brincavam com os legos na sala e reclamavam minha atenção e presença. Prá que fazer boneca, se já sou adulta? E por que fazer uma boneca “tãããão esquisita”? Ah, minha auto-estima... Recebo, como vêem, muito reforço positivo...

Corpo cheio e membros costurados, minha obra virou imediatamente a “boneca zumbi” e o mais novo se põe a correr pela casa assustando o mais velho, que ri e grita simulando pavor. “É um E.T.!!!!”, gargalham os dois. Eu morro de rir e reconheço que o prognóstico não é mesmo muito bom: cabeça triangular demais, membros finos e compridos demais, pescoço mole demais... Parece mesmo uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre.

Resolvo superar a pseudo-derrota e terminar minha empreitada, ainda que seja a última. O vestido vai melhorar tudo, penso tentando me animar. Nem imaginava que seria tão difícil combinar cores e estampas. Calçola, saiotes, vestido, golinha e asinha depois, visto a boneca, que realmente agora parece uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre camponesa! “Cadê a cara dela?” “Ela é careca assim mesmo?”, são os motes dos desafios que eu subestimara até aquele momento.

Como não consegui comprar a lã indicada pro cabelo, comprei um outro material, que esqueci o nome, para fazer às vezes de cabelo. “Esse é o cabelo mais horroroso que já vi!” debocha o mais velho. Pintados os olhos, sobre o olhar atento do mais novo, resolvo me concentrar na pintura dos sapatos, que têm um formato meio de botinhas de bruxa. As cores de tinta que tinha em casa realmente não ajudaram, mas a crítica feroz foi implacável: “Mãe, esse sapato é de cocô???”

A crise parecia gerenciável, até que o mais novo deu o tiro de misericórdia: “Mãe, ela tá chorando!” E eu quase choro ao ver os dois olhinhos, que tanto trabalho me deram, borrados como se o rímel tivesse escorrido pelo rosto. Ele acha graça e mostra os dedinhos sujos de tinta. Desastre completo. Briga, castigo e muito choro do pequeno depois, resolvo não me dar por vencida. Tinta branca cobriu as manchas e a boneca fica parecendo uma eterna surfista, com manchas brancas de protetor solar sob os olhos... Sapatos cor de cocô com falso amarrado em dourado e meinhas de bico inglês, lacinhos amarelos no cabelo e um pouquinho de blush, para dar um ar saudável. Pronto, terminei minha primeira boneca com um gostinho amargo na boca... Eu realmente não sei fazer bonecas.

Sábado de manhã, lá vem o pequeno com a boneca debaixo do braço. Da máquina, observo enquanto eles conversam sobre ela e provoco: “Ela precisa de um nome, meninos!” “O nome dela é Sofia!”, batiza o mais novo, do alto da segurança de ser o autor dos atentados contra a integridade da pobre boneca.

Olho prá ele espantada e aceito a realidade: é um nome realmente apropriado. Sofia. Saber. A síntese daquele processo criativo, os desafios superados, a criatividade em ação, o prazer de realizar uma coisa nova. Você pode extrapolar o meu banal e doméstico microcosmo e testar esta metáfora em qualquer momento em que se sentiu desafiado, estimulado: no final, era sempre sobre aprender/saber algo.

Não preciso nem dizer que Sofia foi adotada e ficará morando em casa, “irmã” dos meninos. O pequeno levou Sofia ao aniversário da prima, dentro do carro botou cinto de segurança para ela “não se machucar” e quase pulam juntos na piscina.

Eu? Depois da escolha de Sofia como tema deste post, já resolvi que após analisar todas as críticas e usando tudo que já sei vou fazer outras bonecas. E me pego contando vantagem na festa de aniversário onde toca “Emília, Emília, Emília”: foi a primeira boneca que fiz, não ficou bom para uma primeira vez??

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