A saga das capas de garrafão continua, a despeito de tudo, inabalável, tal qual novela mexicana. Terminado o projeto dos capotes da Nathália, estão na fila as pimentas chilli da D. Ana e flores para a Lenis (quase perdendo para pássaros, em homenagem ao Juvenal, papagaio dela).
Meu apreço por capas de garrafão sofreu críticas duras, mas eu fiz “ouvido de mercador”. “Eu poderia estar roubando, matando, mas estou aqui, fazendo capas de garrafão bordadas pros amigos”, respondi em várias ocasiões. Rsrsrsrsrsrs
Não quero saber por qual meio, quero apenas expressar as múltiplas possibilidades do bordado e permitir a quem ganha um presente compartilhar um pouco do carinho que dediquei naquela peça.
Por exemplo: a professora da Rafinha, Tia Marilac, faz aniversário em agosto, mesmo mês dele, e já informou: “É no Dia do Folclore!”. Na hora, pensando sobre que presente dar, lembrei do projeto em andamento, a toalha marfim, na qual tento reproduzir o bordado que parece Rechilieu, como uma boa opção.
Òbvio que seria mais divertido se eu tivesse fazendo algo que representasse os personagens mais famosos de nosso folclore... Mas numa rápida pesquisa na internet, descobri que o folclore pode ser definido como “...o conjunto de todas as tradições, lendas e crenças de um país e pode ser percebido na alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de uma nação”.
(Fonte: http://www.velhosamigos.com.br/DatasEspeciais/diafolclore4.html)
Num país tão rico em festas, folguedos e, claro, folclore, nascer no dia 22 de Agosto é quase como nascer no Dia da Cultura e nosso artesanato acaba por ser uma parte de nosso folclore, concordam? Assim, se tudo correr bem, Tia Marilac receberá um presente personalizado, feito com o mesmo carinho que a une a mim e ao Rafa.
Sei que nem todo mundo tem tempo, disposição, vontade para os trabalhos manuais. Mas sonho com o tempo em que todos tenham mais tempo para a delicadeza das relações, para lutar contra a mercantilização do afeto e a massificação da subjetividade. Às vezes parecemos todos mulas sem cabeça correndo de um lado pro outro, sem saber direito o que procuramos nessa vida...
domingo, 15 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
As pequenas vilanias do cotidiano e a morte da gentileza
Meu tio Severino acaba de morrer. Como em tantas famílias, na minha ele era um
tio distante, que eu via ocasionalmente quando visitava meus pais, na pequena
cidade onde nasci. Estava sempre à sombra de sua esposa, mulher forte e
aguerrida, esteio da família.
Ele era um cordato, uma pessoa gentil. Não me lembro de uma ocasião sequer em
que tenha ouvido sua voz uma oitava mais alta. No telefonema no qual minha mãe
me contou sobre seu falecimento, o choro lamentava a perda de uma pessoa
querida. E eu, no meio do engarrafamento das oito da manhã, quedei pensando
sobre a falta que pode fazer uma pessoa cordata no mundo.
O que ele deixou? Filhos, netos, bisnetos. Não deixou bens, feitos, nome de
praça ou de rua. Não construiu um império, sequer uma pequena empresa. Não sei
bem em que trabalhou ao longo da vida, talvez um homem da terra. Na verdade, não
sei muito sobre sua história. Talvez as pessoas com as quais conviveu mostrassem
aspectos diversos.
Que pequenas vilanias teria cometido ao longo da vida? Foi mesquinho, tirano?
Seria sua gentileza fruto do amadurecimento de uma personalidade dura e
autoritária ou uma espécie de fardo da resignação do qual sofreu a vida inteira?
Tarde demais para especular.
Morreu um cordato e no meio do engarrafamento essa qualidade nunca me pareceu
tão necessária. A gentileza de dar passagem a alguém no trânsito é recebida
quase com descrédito pelo beneficiado, com um riso de agradecimento culpado ou o
polegar levantado como uma promessa: também vou fazer isso de uma próxima.
Tio Severino dirigia? Não sei. Só sei que num mundo em que se mata e morre por
status, poder, fama, para não dar passagem no trânsito ou por não se importar
com quem anda nas ruas, sua existência fez um enorme sentido. Boa passagem, tio.
domingo, 8 de agosto de 2010
Um certo Van Gogh
Estes são os girassóis do Van Gogh, que a Gis tá bordando. Já pedi mil vezes prá ela escrever um post, comentando sua experiência e as dificuldades de reproduzir uma obra de arte por meio do bordado, mas nada!
Foi exatamente na tentativa de reproduzir este gráfico que eu e o ponto cruz nos divorciamos. Desisti antes de chegar nas flores, mas a Gis vai realizar este sonho antigo. O mesmo quadro pode ser visto prontinho no site da Edidene.
Feliz Dia dos Pais!
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Bordado levado ao extremo


Sábado à noitinha fomos visitar a Feira de Artesanato do Ceart, no Centro Dragão do Mar (para os que não são do Ceará, este é um dos nossos cartões postais, um espaço de lazer e cultura na famosa Praia de Iracema, em Fortaleza). Eu adoro feiras de artesanato! Daquelas “pé de chinelo” às internacionais. O que vejo nas feiras de artesanato, em todos os países, é a expressão da cultura local, exemplos da criatividade das pessoas e os novos usos de materiais e técnicas, muito mais que os meros artefatos à venda.
A feira reuniu artesãos de vários locais do Estado e estava muito rica. Peças esculpidas em madeiras, brinquedos (sensação entre os meninos), peças de vestuário, luminárias de resina e escamas (lindíssimas), de cipó, tecidos artesanais, mosaicos e, claro, inúmeros trabalhos em crochê, bordados diversos e pachtwork. Duas constatações que fiz durante a visita acabaram por motivar este post: 1) a quase ausência de peças com utilização de ponto cruz, antes hegemônicas; e 2) o crescimento da oferta de peças com bordados diversos, apliqué e trabalhos em pachtwork.
Uma das artesãs me justificou que as pessoas não “gostavam” mais do ponto cruz. Em que pese a minha visão sobre a técnica, confesso que vinha achando tudo muito lugar comum. As mesmas flores, os mesmos motivos bordados à exaustão e vendidos aos montes talvez tenham esgotado o mercado consumidor.
Conversando depois com a Gis, entusiasta do ponto cruz, sobre a opinião da tal artesã, ela me rebate com o blog Ponto Cruz Levado ao Extremo, da Edidene (http://cruzaoextremo.blogspot.com/) e ficamos ambas boquiabertas. A Edidene, também enjoada das toalhinhas de lavado, resolve se desafiar e borda, em ponto cruz, reproduções de obras de arte famosas: Picasso, Renoir, Cézanne... Borda ainda incríveis fotos e muitos super-heróis! Tive que me render novamente ao ponto cruz que embaralha nossa percepção sobre artesanato e arte.
Na mesma semana, recebo o livro da Trish Burr, Long and Short Stitch Embroidery (http://www.trishburr.co.za/). A técnica apresentada, utilizada na reprodução de flores, beira a perfeição e intitula-se “pintura com agulha”. Utiliza os chamados “long and short stitchs”, que na minha avaliação a partir do Dicionário de Pontos da Lucinda Ganderton que utilizo sempre, pode ser equiparado ao nosso Ponto Matiz. Só que levado ao extremo.
Burr ensina como utilizar o bordado para a reprodução de flores tal qual as pinturas de compêndios de botânica, buscando reproduzir com a maior fidelidade possível a natureza. É quase impossível acreditar que se obtenha profundidade, jogo de luz e sombras e todos os detalhes que podem existir, por exemplo, numa orquídea, com a combinação prosaica de linhas e agulha...
Dias antes, visitando a exposição do Vik Muniz, aqui em Fortaleza, fico mais uma vez embasbacada com os diferentes usos de materiais comuns para expressão da arte. Duas obras da Série Linhas me chamaram a atenção por utilizar linha preta, de diversas espessuras, sobre fundo branco para recriar paisagens bucólicas. Árvores, campos, cercas, pontes. Está tudo lá, no emaranhado de linhas. Os meninos, que visitaram a exposição comigo, adoraram. O extremo da arte de Vik une o grande e o pequeno, assim como os milhares de cruzinhas bordadas pela Edidene formam as frutas de Cézanne ou o rosto de sua avó.
Na feirinha, me encanto com uma toalhinha de lavabo, bordada com ponto caseado sobre o desfiado da barra de bordar. Resolvo compra-la para tentar reproduzir o bordado, que deixa a barra com cara de Rechilieu, muito delicado. Nunca tinha visto a técnica e puxo conversa com a artesã que, pacientemente, me explica como desfiar a quantidade correta de fios para possibilitar o surgimento das flores (veja as fotos). O resultado permite variações a partir da utilização de linhas de cores diferentes.
Saio da feira pensativa. A artesã havia me mostrado outras peças lindas, com a utilização de bordado livre para customizar peças de vestuário, de cozinha, tapetes e bolsas. “Mas tem que bordar pouco em cada peça e não muito cheio, por que senão demora muito... e a gente precisa sobreviver, né?”. É, concordo. Um pouquinho já faz uma enorme diferença. É possível que eu tenha tido sorte e encontrado uma pessoa generosa, que não se importou de dividir comigo sua arte. Prefiro acreditar que existe uma certa cumplicidade entre iguais e o extremo talvez comece e termine no prosaico, na simplicidade.
Imaginei Thish Burr sentada na sala de sua casa na África, pesquisando linhas para as cores de um lírio, a Edidene chegando do trabalho cansada mas ansiosa para terminar o Homem-Aranha do seu pequeno, as alvas toalhinhas de lavabo numa cidadezinha qualquer da região metropolitana de Fortaleza esperando para serem vendidas pela artesã na feirinha, Vik Muniz em Nova York (ou em qualquer lugar do mundo) espalhando o emaranhado de linha preta sobre uma folha de papel em branco e eu, no outro extremo, puxando um fio de pensamento que tenta unir todas estas experiências...
Qualquer tipo de expressão pode nos levar ao extremo, mas às vezes basta um pouquinho de beleza para fazer toda a diferença.
terça-feira, 27 de julho de 2010
“Está feliz? Então sorria!”



Depois de um breve recesso – pausa criativa – a comichão cerebral tem recomeçado aos poucos. As coisas se processam assim mesmo: às vezes preciso de um tempo, no qual as agulhas que parecem invenções despropositadas ou, como diz o meu pequeno, “assustadoras”.
Mini flash back:
1. Conjunto bege com orquídeas ainda inconcluso, me aventurei pelo bordado com fitas e descobri que a minha habilidade não seria menor se estivesse usando um traje espacial...
2. Na fila continuam a capa de garrafão com motivos de pimentas, já pesquisadas.
3. Minha amiga Gis se superou no bordado da Ferrari para a toalha do Gui, em ponto cruz. Agora, trabalha herculeamente nos girassóis de Van Gogh, trabalho que levou a mim e o ponto cruz a rompermos irremediavelmente... Estou tentando convencê-la a postar algo sobre sua experiência para construirmos um blog a muitas mãos...
Mini flash forward:
1. Conjunto bege na cama, lençol e fronhas, totalmente acabados, numa quinta feira qualquer de agosto ou setembro...
2. Eu vagando pelos armarinhos de Lisboa, comprando linhas as mais diferentes, esquecida do mundo...
3. Trabalhos da Marie Claire Ideés, que comprei na Livraria da Travessa no Rio, realizados com sucesso: satisfação total, beirando o nirvana...
De férias com os meninos no Rio, achei a cidade absolutamente “bordável”. Na Livraria da Travessa, comprei dois volumes da coleção Marie Claire Ideés sobre bordado e fiquei absolutamente encantada. Enquanto devorava as técnicas e motivos, meu menor confundiu minha cara concentrada com uma “cara brava”:
- Mãe, por que você ta com essa cara brava?
- Não to brava, filho... Tô concentrada.
- Concentrada? (longa explicação sobre o que vem a ser concentração para um ser humano de três anos...)
-Ah, ta... Então você ta feliz?
- (Eu exultante com meu achado) Tô feliz sim, filho...
- Então sorria!
Moral da história: felicidade e sorrisos estão inextricavelmente vinculados desde a mais tenra infância. A gente é que cresce e esquece. E no Rio todo mundo parece que fala rindo... rsrsrsrs
domingo, 4 de julho de 2010
Como um dia de domingo...



Quase desisti do último post... Meu marido, que leu antes de eu publicá-lo, estranhou: “tá ruim assim?”. Tá passando. Hoje, domingo, os meninos melhores, reagindo às medicações, uma vontade de fazer alguma coisa, um dia inteiro para fazer o que der na telha... Decidi publicá-lo por que resolvi escrever e isso significa uma espécie de desnudamento.
Pela manhã, concluí o tema dos capotes. Preenchi as partes maiores com o vagonite. Os coraçõezinhos do corpo fiz em ponto cheio, com contorno em ponto atrás, para destacar. Os contornos das cristas fiz em ponto palestrina. Na cabeça, ponto cadeia e no resto do corpo, ponto haste. Abaixo das aves, um jardinzinho bem delicado, para testar alguns pontos que há muito eu queria fazer.
Na seqüência, as pimentas chilli da D. Ana, que a minha irmã propôs em vermelho, laranja, amarelo e verde. Pensei em desenhá-las por toda a capa, como se estivessem caindo. Como o motivo é pequeno, não cabe centralizá-lo ou enquadrá-lo. Estou propensa, no entanto, a testar o bordado em fita, que nunca fiz antes o que parece que acontecerá antes da capa das pimentas.
Durante o resto do dia, me dediquei à produção dos panos de prato coloridos. Estou experimentando sem os bordados em vagonite, por não tê-los prontos, apenas aplicando tecidos, bordado inglês, viés ou fitas “gregas”. Fazer o preço de venda ainda é um problema...
Como vêem, um domingo produtivo. Ainda arranjei tempo para uma corridinha no parque e para experimentar mais uma receita do La Cucinetta (http://www.lacucinetta.com.br/), o Bolo Simples de Limão, que ficou bem delicado, algo como um pão de ló. Não tivemos a paciência de esperar as horas recomendadas pela Ana Elisa, comemos ainda morno e o xarope de limão, da cobertura, grudou um pouco no dente... Um preço pequeno a pagar pela impaciência. Rsrsrsrsr
Onde vive a tristeza?
Eu não sou uma pessoa muito sociável, digo, naturalmente sociável. Gosto demais da minha individualidade, de momentos de silêncio, paquero com a solidão (talvez por não viver imersa nela), coisa realmente luxuosa para quem tem dois pequenos e o batalhão de atividades que estão implícitas (e explícitas) na tarefa de criar.
Isso se torna mais evidente em tempos de fervor e euforia, quando fico quase outsider. A euforia que se espera não vive em mim. Prefiro me ocupar com outras coisas, o que fiz durante todos os jogos anteriores do Brasil, durante esta Copa do Mundo. Os capotes da capa de garrafão da Nathália estão quase prontos, materializados durante os jogos. Minha cintura ganhou calorias a mais de bolos que fiz e comi, saboreando a vitória dos meninos do Brasil.
Mas a tristeza, tema deste post, não veio da derrota do Brasil para a Holanda. Ela está comigo desde ontem, como uma sombra. Às vezes fico assim, meio fechada dentro da concha, ou como o lado escuro da lua que a gente não vê, mas tá lá... Tenho uma consciência cristalina destes momentos e, em algumas ocasiões, sei exatamente o acontecimento que precipita a colocação de uma espécie de lente gris sobre o mundo.
Desde ontem à tarde estou olhando para onde vive a tristeza. Meu sentimento mistura nostalgia do que foi e do que poderia ter sido, uma dosezinha de desesperança, um quê de impaciência. Dura o tempo suficiente para que eu não esqueça a fragilidade das coisas e das relações e possa valorizá-las. Não sei explicar como se vai. Às vezes, quando dou por mim, o mundo tem cor de novo.
Durante os breves momentos em que os monstros ficam me espreitando sobre os ombros, tenho certeza do poder terapêutico dos trabalhos manuais e quase me arrependo de não estar fazendo um mestrado em psicologia. O pragmatismo dos administradores é da luz e não das sombras, varridas para debaixo de algum tapete desenvolvimentista.
Enquanto milhões lamentam a derrota da seleção, eu lamento saber que outros tantos estão imersos em longos diálogos com a tristeza e esta vai ganhando corpo e os engolfando lentamente. Existem milhares para os quais a lente gris vira regra. Para quem o tempo parou.
PS: Quase desisti deste post... tão sombrio...
Isso se torna mais evidente em tempos de fervor e euforia, quando fico quase outsider. A euforia que se espera não vive em mim. Prefiro me ocupar com outras coisas, o que fiz durante todos os jogos anteriores do Brasil, durante esta Copa do Mundo. Os capotes da capa de garrafão da Nathália estão quase prontos, materializados durante os jogos. Minha cintura ganhou calorias a mais de bolos que fiz e comi, saboreando a vitória dos meninos do Brasil.
Mas a tristeza, tema deste post, não veio da derrota do Brasil para a Holanda. Ela está comigo desde ontem, como uma sombra. Às vezes fico assim, meio fechada dentro da concha, ou como o lado escuro da lua que a gente não vê, mas tá lá... Tenho uma consciência cristalina destes momentos e, em algumas ocasiões, sei exatamente o acontecimento que precipita a colocação de uma espécie de lente gris sobre o mundo.
Desde ontem à tarde estou olhando para onde vive a tristeza. Meu sentimento mistura nostalgia do que foi e do que poderia ter sido, uma dosezinha de desesperança, um quê de impaciência. Dura o tempo suficiente para que eu não esqueça a fragilidade das coisas e das relações e possa valorizá-las. Não sei explicar como se vai. Às vezes, quando dou por mim, o mundo tem cor de novo.
Durante os breves momentos em que os monstros ficam me espreitando sobre os ombros, tenho certeza do poder terapêutico dos trabalhos manuais e quase me arrependo de não estar fazendo um mestrado em psicologia. O pragmatismo dos administradores é da luz e não das sombras, varridas para debaixo de algum tapete desenvolvimentista.
Enquanto milhões lamentam a derrota da seleção, eu lamento saber que outros tantos estão imersos em longos diálogos com a tristeza e esta vai ganhando corpo e os engolfando lentamente. Existem milhares para os quais a lente gris vira regra. Para quem o tempo parou.
PS: Quase desisti deste post... tão sombrio...
domingo, 27 de junho de 2010
Sofia


Semana passada, após o treino na academia, dei uma passada na banca de revistas e comprei uma publicação que ainda não conhecia, Ateliê na TV. A primeira matéria trazia modelos de bonecas de pano que achei bem simpáticos. Eu nunca sequer imaginei ser capaz de fazer bonecas, ainda que tenha tido meus momentos “Victor Valentim” na infância... A revista me chamara a atenção, no entanto, por outros motivos e técnicas. Em casa, mal agüentava a curiosidade de folhear, ler sobre cada execução (alguns me entenderão).
Mas aí começou um processo que passei a chamar de “comichão cerebral”. É como uma coceira, só que mental. Não posso evitar, às vezes me angustia, outras vezes é bom prá danar. E fiquei com a maior vontade de fazer a tal boneca de pano!
- Mas eu não sei fazer bonecas! Extensa pesquisa na internet.
- Mas eu não tenho todo o material necessário! Balela: pistola de cola quente, uns paninhos, linha e agulha? Quem não tem isso?
- E os cabelos, meu Deus? Como é que eu vou fazer com os cabelos da boneca? Besteira: mata dez minutos do horário do trabalho e desvia o caminho para passar naquele armarinho que tem coisas legais...
- E a dissertação do mestrado, como é que fica? (silêncio... e fé em Deus que meu orientador não leia este post...)
Todas as argumentações racionais vencidas, me entreguei ao comichão. Manhã de sexta, dia de jogo do Brasil e eu só queria saber de resolver o problema dos moldes para o corpo e membros da boneca. Como não trabalhei neste dia, boa parte da manhã foi dedicada a aumentar em 100% os desenhos da revista. Moldes prontos, Brasil jogando e eu desbravando um território completamente desconhecido.
Pernas e braços costurados e cortados, de tão compridos, me lembraram um livro maravilhoso da minha adolescência: Papai Pernilongo. Eu também, como a personagem do livro, estava meio órfã: a quem recorrer para esclarecer as dúvidas que o passo a passo da revista não resolvia? Enquanto isso, os meninos brincavam com os legos na sala e reclamavam minha atenção e presença. Prá que fazer boneca, se já sou adulta? E por que fazer uma boneca “tãããão esquisita”? Ah, minha auto-estima... Recebo, como vêem, muito reforço positivo...
Corpo cheio e membros costurados, minha obra virou imediatamente a “boneca zumbi” e o mais novo se põe a correr pela casa assustando o mais velho, que ri e grita simulando pavor. “É um E.T.!!!!”, gargalham os dois. Eu morro de rir e reconheço que o prognóstico não é mesmo muito bom: cabeça triangular demais, membros finos e compridos demais, pescoço mole demais... Parece mesmo uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre.
Resolvo superar a pseudo-derrota e terminar minha empreitada, ainda que seja a última. O vestido vai melhorar tudo, penso tentando me animar. Nem imaginava que seria tão difícil combinar cores e estampas. Calçola, saiotes, vestido, golinha e asinha depois, visto a boneca, que realmente agora parece uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre camponesa! “Cadê a cara dela?” “Ela é careca assim mesmo?”, são os motes dos desafios que eu subestimara até aquele momento.
Como não consegui comprar a lã indicada pro cabelo, comprei um outro material, que esqueci o nome, para fazer às vezes de cabelo. “Esse é o cabelo mais horroroso que já vi!” debocha o mais velho. Pintados os olhos, sobre o olhar atento do mais novo, resolvo me concentrar na pintura dos sapatos, que têm um formato meio de botinhas de bruxa. As cores de tinta que tinha em casa realmente não ajudaram, mas a crítica feroz foi implacável: “Mãe, esse sapato é de cocô???”
A crise parecia gerenciável, até que o mais novo deu o tiro de misericórdia: “Mãe, ela tá chorando!” E eu quase choro ao ver os dois olhinhos, que tanto trabalho me deram, borrados como se o rímel tivesse escorrido pelo rosto. Ele acha graça e mostra os dedinhos sujos de tinta. Desastre completo. Briga, castigo e muito choro do pequeno depois, resolvo não me dar por vencida. Tinta branca cobriu as manchas e a boneca fica parecendo uma eterna surfista, com manchas brancas de protetor solar sob os olhos... Sapatos cor de cocô com falso amarrado em dourado e meinhas de bico inglês, lacinhos amarelos no cabelo e um pouquinho de blush, para dar um ar saudável. Pronto, terminei minha primeira boneca com um gostinho amargo na boca... Eu realmente não sei fazer bonecas.
Sábado de manhã, lá vem o pequeno com a boneca debaixo do braço. Da máquina, observo enquanto eles conversam sobre ela e provoco: “Ela precisa de um nome, meninos!” “O nome dela é Sofia!”, batiza o mais novo, do alto da segurança de ser o autor dos atentados contra a integridade da pobre boneca.
Olho prá ele espantada e aceito a realidade: é um nome realmente apropriado. Sofia. Saber. A síntese daquele processo criativo, os desafios superados, a criatividade em ação, o prazer de realizar uma coisa nova. Você pode extrapolar o meu banal e doméstico microcosmo e testar esta metáfora em qualquer momento em que se sentiu desafiado, estimulado: no final, era sempre sobre aprender/saber algo.
Não preciso nem dizer que Sofia foi adotada e ficará morando em casa, “irmã” dos meninos. O pequeno levou Sofia ao aniversário da prima, dentro do carro botou cinto de segurança para ela “não se machucar” e quase pulam juntos na piscina.
Eu? Depois da escolha de Sofia como tema deste post, já resolvi que após analisar todas as críticas e usando tudo que já sei vou fazer outras bonecas. E me pego contando vantagem na festa de aniversário onde toca “Emília, Emília, Emília”: foi a primeira boneca que fiz, não ficou bom para uma primeira vez??
sábado, 19 de junho de 2010
Qualquer motivo
Olá, quem estiver lendo
Despachei as crianças para um aniversário e, excepcionalmente, tive alguns minutos de total e completo silêncio. Corri pro computador para terminar o post sobre o nascimento do Dudu e acabei encontrando o blog da Valquiria que li de cabo a rabo e amei: http://qualquermotivo.blog.uol.com.br
A partir dele, entrei em vários outros blogs sugeridos e fiquei, mais uma vez, embasbacada com as maravilhas que se pode fazer com linhas e agulhas. A valquiria relacionou alguns sites em inglês que considerei obras primas:
http://www.victorian-embroidery-and-crafts.com/embroidery-stitches.html
http://www.trishburr.co.za/
Por último, adorei a definição sobre o ponto matiz, que eu adoro: pintura com linhas.
Ótimo fim de semana a todos. Amanhã, começa mais um capítulo da "saga das capas de garrafão".
Despachei as crianças para um aniversário e, excepcionalmente, tive alguns minutos de total e completo silêncio. Corri pro computador para terminar o post sobre o nascimento do Dudu e acabei encontrando o blog da Valquiria que li de cabo a rabo e amei: http://qualquermotivo.blog.uol.com.br
A partir dele, entrei em vários outros blogs sugeridos e fiquei, mais uma vez, embasbacada com as maravilhas que se pode fazer com linhas e agulhas. A valquiria relacionou alguns sites em inglês que considerei obras primas:
http://www.victorian-embroidery-and-crafts.com/embroidery-stitches.html
http://www.trishburr.co.za/
Por último, adorei a definição sobre o ponto matiz, que eu adoro: pintura com linhas.
Ótimo fim de semana a todos. Amanhã, começa mais um capítulo da "saga das capas de garrafão".
A mulher mais realizada da face da Terra


Hoje de manhãzinha nasceu meu sobrinho mais novinho, o Dudu. Minha cunhada tornou-se, imediatamente, a mulher mais realizada da face da Terra. Eu olhava prá ela e ficava lembrando daquela sensação, que já vivi duas vezes. Perto de nós, meu bordado sobre o fundo do mar, faltando apenas a última estrela e as bolhinhas. Hospitais e bordados estão virando uma dupla, ao que parece.
Enquanto ela contrariava todas as recomendações médicas e falava sem parar, aturdida com a novidade de ser mãe e ansiosa pela chegada do Dudu no apartamento, eu puxei o bordado e comecei a estrela, preechendo-a com uma linha matizada vermelha, do centro para as bordas. Escolhi para a parte externa um ponto chamado “nó dinamarquês”, em vermelho cereja, para dar aquela textura meio “cascarenta” da estrela do mar.
Quando o Dudu chegou e nós admirávamos suas primeiras tentativas de mamar me ocorreu que aquele bordado, coincidentemente, tinha tudo a ver com o momento. Dudu deixara a água e lutava para se adaptar a este mundo novo, com a necessidade de respirar, descobrindo a capacidade de chorar e buscando, com sofreguidão, o seio que se oferecia. Era quase um peixinho que mudara de estatuto, deixando de ser hipótese e sonho, tornando-se real para minha cunhada e seu marido.
Ela também estava mudando de estatuto, enquanto o mar que carregou dentro de si por nove meses foi esvaziado. Deixava de ser filha, tia, professora, cunhada, amiga, fisioterapeuta e, durante um tempo que ninguém consegue precisar, será apenas mãe do Dudu. Ou “mãezinha”, como insistem em chamar as enfermeiras e auxiliares, o que me embrulha o estômago até hoje...
Quem se preocupa com a devassidão do corpo de uma mãe que amamenta? Um corpo que é vasculhado, perscrutado, mexido, estimulado para a produção de leite, um corpo que antes era apenas oceano passa a ser olhado como um grande e potencialmente nutritivo celeiro, capaz de amamentar o pequeno Dudu e, com sorte, ajudar outras crianças para quem o leite materno faltou...
“Tá saindo o colostro? Ele tá conseguindo?” ela perguntava.
Ah, a ansiedade das mães... não é uma circunstância, como pensam os céticos, é uma condição, parte indissociável deste novo estatuto. Tá incluído no pacote, eu concluía, fazendo os nós que alguma mãe bordadeira dinamarquesa inventou quase que por acaso. Num momento “mergulhe no seu próprio mar de emoções”, fiquei remexendo no meu baú de reminiscências e a primeira infância dos meninos passou diante dos meus olhos em mini flash backs, um pontinho de cada vez: a chegada em casa, os primeiros dias, os medos, as pequenas descobertas, os sorrisinhos, as primeiras palavras, o primeiro dia da escola, as velas sopradas e os brinquedos e as pessoas que foram ficando pelo caminho.
Meus dois bordados estão em andamento. São coloridos, multifacetados, matizados, felizes. A trama do Dudu começa a ser tecida hoje, um pontinho de cada vez.
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