domingo, 8 de agosto de 2010
Um certo Van Gogh
Estes são os girassóis do Van Gogh, que a Gis tá bordando. Já pedi mil vezes prá ela escrever um post, comentando sua experiência e as dificuldades de reproduzir uma obra de arte por meio do bordado, mas nada!
Foi exatamente na tentativa de reproduzir este gráfico que eu e o ponto cruz nos divorciamos. Desisti antes de chegar nas flores, mas a Gis vai realizar este sonho antigo. O mesmo quadro pode ser visto prontinho no site da Edidene.
Feliz Dia dos Pais!
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Bordado levado ao extremo


Sábado à noitinha fomos visitar a Feira de Artesanato do Ceart, no Centro Dragão do Mar (para os que não são do Ceará, este é um dos nossos cartões postais, um espaço de lazer e cultura na famosa Praia de Iracema, em Fortaleza). Eu adoro feiras de artesanato! Daquelas “pé de chinelo” às internacionais. O que vejo nas feiras de artesanato, em todos os países, é a expressão da cultura local, exemplos da criatividade das pessoas e os novos usos de materiais e técnicas, muito mais que os meros artefatos à venda.
A feira reuniu artesãos de vários locais do Estado e estava muito rica. Peças esculpidas em madeiras, brinquedos (sensação entre os meninos), peças de vestuário, luminárias de resina e escamas (lindíssimas), de cipó, tecidos artesanais, mosaicos e, claro, inúmeros trabalhos em crochê, bordados diversos e pachtwork. Duas constatações que fiz durante a visita acabaram por motivar este post: 1) a quase ausência de peças com utilização de ponto cruz, antes hegemônicas; e 2) o crescimento da oferta de peças com bordados diversos, apliqué e trabalhos em pachtwork.
Uma das artesãs me justificou que as pessoas não “gostavam” mais do ponto cruz. Em que pese a minha visão sobre a técnica, confesso que vinha achando tudo muito lugar comum. As mesmas flores, os mesmos motivos bordados à exaustão e vendidos aos montes talvez tenham esgotado o mercado consumidor.
Conversando depois com a Gis, entusiasta do ponto cruz, sobre a opinião da tal artesã, ela me rebate com o blog Ponto Cruz Levado ao Extremo, da Edidene (http://cruzaoextremo.blogspot.com/) e ficamos ambas boquiabertas. A Edidene, também enjoada das toalhinhas de lavado, resolve se desafiar e borda, em ponto cruz, reproduções de obras de arte famosas: Picasso, Renoir, Cézanne... Borda ainda incríveis fotos e muitos super-heróis! Tive que me render novamente ao ponto cruz que embaralha nossa percepção sobre artesanato e arte.
Na mesma semana, recebo o livro da Trish Burr, Long and Short Stitch Embroidery (http://www.trishburr.co.za/). A técnica apresentada, utilizada na reprodução de flores, beira a perfeição e intitula-se “pintura com agulha”. Utiliza os chamados “long and short stitchs”, que na minha avaliação a partir do Dicionário de Pontos da Lucinda Ganderton que utilizo sempre, pode ser equiparado ao nosso Ponto Matiz. Só que levado ao extremo.
Burr ensina como utilizar o bordado para a reprodução de flores tal qual as pinturas de compêndios de botânica, buscando reproduzir com a maior fidelidade possível a natureza. É quase impossível acreditar que se obtenha profundidade, jogo de luz e sombras e todos os detalhes que podem existir, por exemplo, numa orquídea, com a combinação prosaica de linhas e agulha...
Dias antes, visitando a exposição do Vik Muniz, aqui em Fortaleza, fico mais uma vez embasbacada com os diferentes usos de materiais comuns para expressão da arte. Duas obras da Série Linhas me chamaram a atenção por utilizar linha preta, de diversas espessuras, sobre fundo branco para recriar paisagens bucólicas. Árvores, campos, cercas, pontes. Está tudo lá, no emaranhado de linhas. Os meninos, que visitaram a exposição comigo, adoraram. O extremo da arte de Vik une o grande e o pequeno, assim como os milhares de cruzinhas bordadas pela Edidene formam as frutas de Cézanne ou o rosto de sua avó.
Na feirinha, me encanto com uma toalhinha de lavabo, bordada com ponto caseado sobre o desfiado da barra de bordar. Resolvo compra-la para tentar reproduzir o bordado, que deixa a barra com cara de Rechilieu, muito delicado. Nunca tinha visto a técnica e puxo conversa com a artesã que, pacientemente, me explica como desfiar a quantidade correta de fios para possibilitar o surgimento das flores (veja as fotos). O resultado permite variações a partir da utilização de linhas de cores diferentes.
Saio da feira pensativa. A artesã havia me mostrado outras peças lindas, com a utilização de bordado livre para customizar peças de vestuário, de cozinha, tapetes e bolsas. “Mas tem que bordar pouco em cada peça e não muito cheio, por que senão demora muito... e a gente precisa sobreviver, né?”. É, concordo. Um pouquinho já faz uma enorme diferença. É possível que eu tenha tido sorte e encontrado uma pessoa generosa, que não se importou de dividir comigo sua arte. Prefiro acreditar que existe uma certa cumplicidade entre iguais e o extremo talvez comece e termine no prosaico, na simplicidade.
Imaginei Thish Burr sentada na sala de sua casa na África, pesquisando linhas para as cores de um lírio, a Edidene chegando do trabalho cansada mas ansiosa para terminar o Homem-Aranha do seu pequeno, as alvas toalhinhas de lavabo numa cidadezinha qualquer da região metropolitana de Fortaleza esperando para serem vendidas pela artesã na feirinha, Vik Muniz em Nova York (ou em qualquer lugar do mundo) espalhando o emaranhado de linha preta sobre uma folha de papel em branco e eu, no outro extremo, puxando um fio de pensamento que tenta unir todas estas experiências...
Qualquer tipo de expressão pode nos levar ao extremo, mas às vezes basta um pouquinho de beleza para fazer toda a diferença.
terça-feira, 27 de julho de 2010
“Está feliz? Então sorria!”



Depois de um breve recesso – pausa criativa – a comichão cerebral tem recomeçado aos poucos. As coisas se processam assim mesmo: às vezes preciso de um tempo, no qual as agulhas que parecem invenções despropositadas ou, como diz o meu pequeno, “assustadoras”.
Mini flash back:
1. Conjunto bege com orquídeas ainda inconcluso, me aventurei pelo bordado com fitas e descobri que a minha habilidade não seria menor se estivesse usando um traje espacial...
2. Na fila continuam a capa de garrafão com motivos de pimentas, já pesquisadas.
3. Minha amiga Gis se superou no bordado da Ferrari para a toalha do Gui, em ponto cruz. Agora, trabalha herculeamente nos girassóis de Van Gogh, trabalho que levou a mim e o ponto cruz a rompermos irremediavelmente... Estou tentando convencê-la a postar algo sobre sua experiência para construirmos um blog a muitas mãos...
Mini flash forward:
1. Conjunto bege na cama, lençol e fronhas, totalmente acabados, numa quinta feira qualquer de agosto ou setembro...
2. Eu vagando pelos armarinhos de Lisboa, comprando linhas as mais diferentes, esquecida do mundo...
3. Trabalhos da Marie Claire Ideés, que comprei na Livraria da Travessa no Rio, realizados com sucesso: satisfação total, beirando o nirvana...
De férias com os meninos no Rio, achei a cidade absolutamente “bordável”. Na Livraria da Travessa, comprei dois volumes da coleção Marie Claire Ideés sobre bordado e fiquei absolutamente encantada. Enquanto devorava as técnicas e motivos, meu menor confundiu minha cara concentrada com uma “cara brava”:
- Mãe, por que você ta com essa cara brava?
- Não to brava, filho... Tô concentrada.
- Concentrada? (longa explicação sobre o que vem a ser concentração para um ser humano de três anos...)
-Ah, ta... Então você ta feliz?
- (Eu exultante com meu achado) Tô feliz sim, filho...
- Então sorria!
Moral da história: felicidade e sorrisos estão inextricavelmente vinculados desde a mais tenra infância. A gente é que cresce e esquece. E no Rio todo mundo parece que fala rindo... rsrsrsrs
domingo, 4 de julho de 2010
Como um dia de domingo...



Quase desisti do último post... Meu marido, que leu antes de eu publicá-lo, estranhou: “tá ruim assim?”. Tá passando. Hoje, domingo, os meninos melhores, reagindo às medicações, uma vontade de fazer alguma coisa, um dia inteiro para fazer o que der na telha... Decidi publicá-lo por que resolvi escrever e isso significa uma espécie de desnudamento.
Pela manhã, concluí o tema dos capotes. Preenchi as partes maiores com o vagonite. Os coraçõezinhos do corpo fiz em ponto cheio, com contorno em ponto atrás, para destacar. Os contornos das cristas fiz em ponto palestrina. Na cabeça, ponto cadeia e no resto do corpo, ponto haste. Abaixo das aves, um jardinzinho bem delicado, para testar alguns pontos que há muito eu queria fazer.
Na seqüência, as pimentas chilli da D. Ana, que a minha irmã propôs em vermelho, laranja, amarelo e verde. Pensei em desenhá-las por toda a capa, como se estivessem caindo. Como o motivo é pequeno, não cabe centralizá-lo ou enquadrá-lo. Estou propensa, no entanto, a testar o bordado em fita, que nunca fiz antes o que parece que acontecerá antes da capa das pimentas.
Durante o resto do dia, me dediquei à produção dos panos de prato coloridos. Estou experimentando sem os bordados em vagonite, por não tê-los prontos, apenas aplicando tecidos, bordado inglês, viés ou fitas “gregas”. Fazer o preço de venda ainda é um problema...
Como vêem, um domingo produtivo. Ainda arranjei tempo para uma corridinha no parque e para experimentar mais uma receita do La Cucinetta (http://www.lacucinetta.com.br/), o Bolo Simples de Limão, que ficou bem delicado, algo como um pão de ló. Não tivemos a paciência de esperar as horas recomendadas pela Ana Elisa, comemos ainda morno e o xarope de limão, da cobertura, grudou um pouco no dente... Um preço pequeno a pagar pela impaciência. Rsrsrsrsr
Onde vive a tristeza?
Eu não sou uma pessoa muito sociável, digo, naturalmente sociável. Gosto demais da minha individualidade, de momentos de silêncio, paquero com a solidão (talvez por não viver imersa nela), coisa realmente luxuosa para quem tem dois pequenos e o batalhão de atividades que estão implícitas (e explícitas) na tarefa de criar.
Isso se torna mais evidente em tempos de fervor e euforia, quando fico quase outsider. A euforia que se espera não vive em mim. Prefiro me ocupar com outras coisas, o que fiz durante todos os jogos anteriores do Brasil, durante esta Copa do Mundo. Os capotes da capa de garrafão da Nathália estão quase prontos, materializados durante os jogos. Minha cintura ganhou calorias a mais de bolos que fiz e comi, saboreando a vitória dos meninos do Brasil.
Mas a tristeza, tema deste post, não veio da derrota do Brasil para a Holanda. Ela está comigo desde ontem, como uma sombra. Às vezes fico assim, meio fechada dentro da concha, ou como o lado escuro da lua que a gente não vê, mas tá lá... Tenho uma consciência cristalina destes momentos e, em algumas ocasiões, sei exatamente o acontecimento que precipita a colocação de uma espécie de lente gris sobre o mundo.
Desde ontem à tarde estou olhando para onde vive a tristeza. Meu sentimento mistura nostalgia do que foi e do que poderia ter sido, uma dosezinha de desesperança, um quê de impaciência. Dura o tempo suficiente para que eu não esqueça a fragilidade das coisas e das relações e possa valorizá-las. Não sei explicar como se vai. Às vezes, quando dou por mim, o mundo tem cor de novo.
Durante os breves momentos em que os monstros ficam me espreitando sobre os ombros, tenho certeza do poder terapêutico dos trabalhos manuais e quase me arrependo de não estar fazendo um mestrado em psicologia. O pragmatismo dos administradores é da luz e não das sombras, varridas para debaixo de algum tapete desenvolvimentista.
Enquanto milhões lamentam a derrota da seleção, eu lamento saber que outros tantos estão imersos em longos diálogos com a tristeza e esta vai ganhando corpo e os engolfando lentamente. Existem milhares para os quais a lente gris vira regra. Para quem o tempo parou.
PS: Quase desisti deste post... tão sombrio...
Isso se torna mais evidente em tempos de fervor e euforia, quando fico quase outsider. A euforia que se espera não vive em mim. Prefiro me ocupar com outras coisas, o que fiz durante todos os jogos anteriores do Brasil, durante esta Copa do Mundo. Os capotes da capa de garrafão da Nathália estão quase prontos, materializados durante os jogos. Minha cintura ganhou calorias a mais de bolos que fiz e comi, saboreando a vitória dos meninos do Brasil.
Mas a tristeza, tema deste post, não veio da derrota do Brasil para a Holanda. Ela está comigo desde ontem, como uma sombra. Às vezes fico assim, meio fechada dentro da concha, ou como o lado escuro da lua que a gente não vê, mas tá lá... Tenho uma consciência cristalina destes momentos e, em algumas ocasiões, sei exatamente o acontecimento que precipita a colocação de uma espécie de lente gris sobre o mundo.
Desde ontem à tarde estou olhando para onde vive a tristeza. Meu sentimento mistura nostalgia do que foi e do que poderia ter sido, uma dosezinha de desesperança, um quê de impaciência. Dura o tempo suficiente para que eu não esqueça a fragilidade das coisas e das relações e possa valorizá-las. Não sei explicar como se vai. Às vezes, quando dou por mim, o mundo tem cor de novo.
Durante os breves momentos em que os monstros ficam me espreitando sobre os ombros, tenho certeza do poder terapêutico dos trabalhos manuais e quase me arrependo de não estar fazendo um mestrado em psicologia. O pragmatismo dos administradores é da luz e não das sombras, varridas para debaixo de algum tapete desenvolvimentista.
Enquanto milhões lamentam a derrota da seleção, eu lamento saber que outros tantos estão imersos em longos diálogos com a tristeza e esta vai ganhando corpo e os engolfando lentamente. Existem milhares para os quais a lente gris vira regra. Para quem o tempo parou.
PS: Quase desisti deste post... tão sombrio...
domingo, 27 de junho de 2010
Sofia


Semana passada, após o treino na academia, dei uma passada na banca de revistas e comprei uma publicação que ainda não conhecia, Ateliê na TV. A primeira matéria trazia modelos de bonecas de pano que achei bem simpáticos. Eu nunca sequer imaginei ser capaz de fazer bonecas, ainda que tenha tido meus momentos “Victor Valentim” na infância... A revista me chamara a atenção, no entanto, por outros motivos e técnicas. Em casa, mal agüentava a curiosidade de folhear, ler sobre cada execução (alguns me entenderão).
Mas aí começou um processo que passei a chamar de “comichão cerebral”. É como uma coceira, só que mental. Não posso evitar, às vezes me angustia, outras vezes é bom prá danar. E fiquei com a maior vontade de fazer a tal boneca de pano!
- Mas eu não sei fazer bonecas! Extensa pesquisa na internet.
- Mas eu não tenho todo o material necessário! Balela: pistola de cola quente, uns paninhos, linha e agulha? Quem não tem isso?
- E os cabelos, meu Deus? Como é que eu vou fazer com os cabelos da boneca? Besteira: mata dez minutos do horário do trabalho e desvia o caminho para passar naquele armarinho que tem coisas legais...
- E a dissertação do mestrado, como é que fica? (silêncio... e fé em Deus que meu orientador não leia este post...)
Todas as argumentações racionais vencidas, me entreguei ao comichão. Manhã de sexta, dia de jogo do Brasil e eu só queria saber de resolver o problema dos moldes para o corpo e membros da boneca. Como não trabalhei neste dia, boa parte da manhã foi dedicada a aumentar em 100% os desenhos da revista. Moldes prontos, Brasil jogando e eu desbravando um território completamente desconhecido.
Pernas e braços costurados e cortados, de tão compridos, me lembraram um livro maravilhoso da minha adolescência: Papai Pernilongo. Eu também, como a personagem do livro, estava meio órfã: a quem recorrer para esclarecer as dúvidas que o passo a passo da revista não resolvia? Enquanto isso, os meninos brincavam com os legos na sala e reclamavam minha atenção e presença. Prá que fazer boneca, se já sou adulta? E por que fazer uma boneca “tãããão esquisita”? Ah, minha auto-estima... Recebo, como vêem, muito reforço positivo...
Corpo cheio e membros costurados, minha obra virou imediatamente a “boneca zumbi” e o mais novo se põe a correr pela casa assustando o mais velho, que ri e grita simulando pavor. “É um E.T.!!!!”, gargalham os dois. Eu morro de rir e reconheço que o prognóstico não é mesmo muito bom: cabeça triangular demais, membros finos e compridos demais, pescoço mole demais... Parece mesmo uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre.
Resolvo superar a pseudo-derrota e terminar minha empreitada, ainda que seja a última. O vestido vai melhorar tudo, penso tentando me animar. Nem imaginava que seria tão difícil combinar cores e estampas. Calçola, saiotes, vestido, golinha e asinha depois, visto a boneca, que realmente agora parece uma boneca-zumbi-fantasma-extraterrestre camponesa! “Cadê a cara dela?” “Ela é careca assim mesmo?”, são os motes dos desafios que eu subestimara até aquele momento.
Como não consegui comprar a lã indicada pro cabelo, comprei um outro material, que esqueci o nome, para fazer às vezes de cabelo. “Esse é o cabelo mais horroroso que já vi!” debocha o mais velho. Pintados os olhos, sobre o olhar atento do mais novo, resolvo me concentrar na pintura dos sapatos, que têm um formato meio de botinhas de bruxa. As cores de tinta que tinha em casa realmente não ajudaram, mas a crítica feroz foi implacável: “Mãe, esse sapato é de cocô???”
A crise parecia gerenciável, até que o mais novo deu o tiro de misericórdia: “Mãe, ela tá chorando!” E eu quase choro ao ver os dois olhinhos, que tanto trabalho me deram, borrados como se o rímel tivesse escorrido pelo rosto. Ele acha graça e mostra os dedinhos sujos de tinta. Desastre completo. Briga, castigo e muito choro do pequeno depois, resolvo não me dar por vencida. Tinta branca cobriu as manchas e a boneca fica parecendo uma eterna surfista, com manchas brancas de protetor solar sob os olhos... Sapatos cor de cocô com falso amarrado em dourado e meinhas de bico inglês, lacinhos amarelos no cabelo e um pouquinho de blush, para dar um ar saudável. Pronto, terminei minha primeira boneca com um gostinho amargo na boca... Eu realmente não sei fazer bonecas.
Sábado de manhã, lá vem o pequeno com a boneca debaixo do braço. Da máquina, observo enquanto eles conversam sobre ela e provoco: “Ela precisa de um nome, meninos!” “O nome dela é Sofia!”, batiza o mais novo, do alto da segurança de ser o autor dos atentados contra a integridade da pobre boneca.
Olho prá ele espantada e aceito a realidade: é um nome realmente apropriado. Sofia. Saber. A síntese daquele processo criativo, os desafios superados, a criatividade em ação, o prazer de realizar uma coisa nova. Você pode extrapolar o meu banal e doméstico microcosmo e testar esta metáfora em qualquer momento em que se sentiu desafiado, estimulado: no final, era sempre sobre aprender/saber algo.
Não preciso nem dizer que Sofia foi adotada e ficará morando em casa, “irmã” dos meninos. O pequeno levou Sofia ao aniversário da prima, dentro do carro botou cinto de segurança para ela “não se machucar” e quase pulam juntos na piscina.
Eu? Depois da escolha de Sofia como tema deste post, já resolvi que após analisar todas as críticas e usando tudo que já sei vou fazer outras bonecas. E me pego contando vantagem na festa de aniversário onde toca “Emília, Emília, Emília”: foi a primeira boneca que fiz, não ficou bom para uma primeira vez??
sábado, 19 de junho de 2010
Qualquer motivo
Olá, quem estiver lendo
Despachei as crianças para um aniversário e, excepcionalmente, tive alguns minutos de total e completo silêncio. Corri pro computador para terminar o post sobre o nascimento do Dudu e acabei encontrando o blog da Valquiria que li de cabo a rabo e amei: http://qualquermotivo.blog.uol.com.br
A partir dele, entrei em vários outros blogs sugeridos e fiquei, mais uma vez, embasbacada com as maravilhas que se pode fazer com linhas e agulhas. A valquiria relacionou alguns sites em inglês que considerei obras primas:
http://www.victorian-embroidery-and-crafts.com/embroidery-stitches.html
http://www.trishburr.co.za/
Por último, adorei a definição sobre o ponto matiz, que eu adoro: pintura com linhas.
Ótimo fim de semana a todos. Amanhã, começa mais um capítulo da "saga das capas de garrafão".
Despachei as crianças para um aniversário e, excepcionalmente, tive alguns minutos de total e completo silêncio. Corri pro computador para terminar o post sobre o nascimento do Dudu e acabei encontrando o blog da Valquiria que li de cabo a rabo e amei: http://qualquermotivo.blog.uol.com.br
A partir dele, entrei em vários outros blogs sugeridos e fiquei, mais uma vez, embasbacada com as maravilhas que se pode fazer com linhas e agulhas. A valquiria relacionou alguns sites em inglês que considerei obras primas:
http://www.victorian-embroidery-and-crafts.com/embroidery-stitches.html
http://www.trishburr.co.za/
Por último, adorei a definição sobre o ponto matiz, que eu adoro: pintura com linhas.
Ótimo fim de semana a todos. Amanhã, começa mais um capítulo da "saga das capas de garrafão".
A mulher mais realizada da face da Terra


Hoje de manhãzinha nasceu meu sobrinho mais novinho, o Dudu. Minha cunhada tornou-se, imediatamente, a mulher mais realizada da face da Terra. Eu olhava prá ela e ficava lembrando daquela sensação, que já vivi duas vezes. Perto de nós, meu bordado sobre o fundo do mar, faltando apenas a última estrela e as bolhinhas. Hospitais e bordados estão virando uma dupla, ao que parece.
Enquanto ela contrariava todas as recomendações médicas e falava sem parar, aturdida com a novidade de ser mãe e ansiosa pela chegada do Dudu no apartamento, eu puxei o bordado e comecei a estrela, preechendo-a com uma linha matizada vermelha, do centro para as bordas. Escolhi para a parte externa um ponto chamado “nó dinamarquês”, em vermelho cereja, para dar aquela textura meio “cascarenta” da estrela do mar.
Quando o Dudu chegou e nós admirávamos suas primeiras tentativas de mamar me ocorreu que aquele bordado, coincidentemente, tinha tudo a ver com o momento. Dudu deixara a água e lutava para se adaptar a este mundo novo, com a necessidade de respirar, descobrindo a capacidade de chorar e buscando, com sofreguidão, o seio que se oferecia. Era quase um peixinho que mudara de estatuto, deixando de ser hipótese e sonho, tornando-se real para minha cunhada e seu marido.
Ela também estava mudando de estatuto, enquanto o mar que carregou dentro de si por nove meses foi esvaziado. Deixava de ser filha, tia, professora, cunhada, amiga, fisioterapeuta e, durante um tempo que ninguém consegue precisar, será apenas mãe do Dudu. Ou “mãezinha”, como insistem em chamar as enfermeiras e auxiliares, o que me embrulha o estômago até hoje...
Quem se preocupa com a devassidão do corpo de uma mãe que amamenta? Um corpo que é vasculhado, perscrutado, mexido, estimulado para a produção de leite, um corpo que antes era apenas oceano passa a ser olhado como um grande e potencialmente nutritivo celeiro, capaz de amamentar o pequeno Dudu e, com sorte, ajudar outras crianças para quem o leite materno faltou...
“Tá saindo o colostro? Ele tá conseguindo?” ela perguntava.
Ah, a ansiedade das mães... não é uma circunstância, como pensam os céticos, é uma condição, parte indissociável deste novo estatuto. Tá incluído no pacote, eu concluía, fazendo os nós que alguma mãe bordadeira dinamarquesa inventou quase que por acaso. Num momento “mergulhe no seu próprio mar de emoções”, fiquei remexendo no meu baú de reminiscências e a primeira infância dos meninos passou diante dos meus olhos em mini flash backs, um pontinho de cada vez: a chegada em casa, os primeiros dias, os medos, as pequenas descobertas, os sorrisinhos, as primeiras palavras, o primeiro dia da escola, as velas sopradas e os brinquedos e as pessoas que foram ficando pelo caminho.
Meus dois bordados estão em andamento. São coloridos, multifacetados, matizados, felizes. A trama do Dudu começa a ser tecida hoje, um pontinho de cada vez.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Um capote, um aniversário e um “eu amo vocês”...

Pedi ao meu irmão que desse uma olhada nos meus posts e o comentário alentador foi: “capa de garrafão é muito cafona...”. Hehehehehe Claro que é cafona, baby! Não pela capa em si. Acho que o garrafão de água, em tempos de sustentabilidade e preocupação sobre o custo (e o futuro) da água é extremamente cafona.
Mas antes que eu enverede discursando sobre este tema (que está absolutamente imbricado com o tema da minha dissertação de mestrado...) preciso atualizá-los sobre o andamento da série “capas cafonas para garrafões de água”. Já tinha postado sobre a minha capa, com as flores de cerejeira, e mencionado os girassóis da Jô, que concluí o bordado, faltando apenas a costura. Comecei a bordar o “fundo do mar” para a minha irmã, que tem um aquário marinho lindíssimo (olha a responsabilidade....), vejam as fotos acima. Mas o que tem me intrigado mesmo é a tal galinha d´Angola, ou capote, como chamamos aqui no Ceará.
Pesquisei várias imagens no google enquanto inquiria a minha amiga Nathália sobre seu gosto por um pássaro tão diferente. Sim, nós eventualmente comemos capote e sabemos que sua carne é um tanto “reimosa” (vou ter que criar depois um glossário de termos nordestinos...), tem uma consistência mais dura e mais escura que a carne de galinha comum.
Realmente, é um bicho intrigante. Não está, segundo Nathália, disposto a morrer com uma breve torção de pescoço, como os frangos, que são molengas e mais esperneiam e fazem barulho que correm. É tão ágil que precisa ser abatido a tiros, como uma caça mais nobre. Para completar, tem origem africana e seu comportamento é arisco, vive em bandos organizados e podem servir como guardas, pondo-se a alertar sobre a presença de estranhos. O comportamento selvagem faz com que estas aves escondam seus ninhos ou não choquem os ovos, levando quem as cria a colocar os ovos para serem chocados por galinhas (muito mais prestativas e dóceis, pelo visto...). Por fim, a plumagem de petit pois brancos sobre um fundo chumbo, quase preto, é um clássico, digno de Chanel, e nunca sai de moda.
Findo este momento “wikipedia”, os bichos escolhidos pela a minha amiga fazem minha flor de cerejeira padecer no ostracismo da obviedade... Só uma pessoa com um pensamento nada medíocre poderia escolher um bicho assim, fiquei refletindo.
Ontem, comemorando o aniversário dela, o assunto do capote veio à tona e causou surpresa nas demais. “É aquele pássaro que canta “tô fraco, tô fraco, tô fraco”?”, quis saber uma. “Eu nunca comi capote”, ressentiu-se a outra. Explicações dadas, rimos muito enquanto saboreávamos a sobremesa regada a uma resolução que só a balzaquice proporciona: como um bando de galinhas d´angola, reforçamos nossos laços de amizade com uma declaração de amor inesperada e a decisão de continuarmos a resistir e não sermos abatidas como frangos resmungões. Somos duras, reimosas e selvagens e o tal do “tô fraco” a gente só canta durante as TPMs...
Ah, antes que me perguntem, a capa de garrafão dos capotes só vou entregar no dia do amigo.
Reflexões do Feriado




Depois de algumas noites sem dormir que potencializaram os efeitos da TPM sobre mim (Rafa e Gui doentes), ontem morguei durante o feriado de Corpus Christie. Sim, havia toneladas de coisas para estudar e ler, mas a cabeça latejava como nunca e a disposição era inversamente proporcional à dor e ao mau humor...
Nesses momentos, gostaria de ter uma casca bem grossa que pudesse me esconder. Não sou canceriana à toa... E não é à toa que o caranguejo representa meu signo. A casca/casa do caranguejo é sua proteção e seu fardo. Eu ontem queria ter, além da minha casa, uma casca bem dura e ficar dentro dela esperando este período passar...
O bordado com os girassóis da Jô fez o papel da casca imaginária. Me acomodei com linhas e tesoura na varanda, após o café, e comecei a dar forma às flores e folhas. Confesso que não gosto muito de girassóis – são flores interessantes, mas algo óbvias e chamativas demais – mas ontem o amarelo das pétalas me pareceu tão animador... À minha volta, os meninos brincavam e brigavam com os legos. Paramos só para almoçar.
À tarde, estava com uma vontade danada de ter meu momento “bolo com café”, mas a cabeça continuava apertada, pesada. Como dizemos por aqui, eu estava “para correr”! E foi o que fiz. Resolvi que poderia ser interessante fazer a passagem ao ato: calcei os tênis e fui correr no parque, no final da tarde. (Tks God pelo meu ascendente, que me impulsiona para fora de todas as cascas...).
De algum modo, o bem estar da corrida/caminhada e o aumento do fluxo sanguíneo fizeram bem para mim e, na volta, consegui fazer o bolo de maçãs com amêndoas que copiei do La Cucinetta (http://www.lacucinetta.com.br/). Eu adoro este bolo. Ele é aromático, reúne a combinação mais perfeita já criada (maçã e canela) e ainda tem o crocante das amêndoas... Não é muito doce e deve ser comido ainda quente, com uma boa xícara de café ou chá. Como é pequeno, não sobra para ficar velho, o que também é bom... Nada como um pedaço reconfortante de bolo com café, num final de tarde, para lembrar que as TPMs são transitórias e que a vida é mais.
Por sinal, já que falei no La Cucinetta, preciso dizer o quanto gosto deste blog e como fico esperando pelos posts da Ana. É um blog que fala mais do que sobre comida, fala sobre um jeito de viver que tento adotar para mim, no meu caso por meio dos trabalhos manuais. Dei de cara com ele por acaso, procurando uma receita de, adivinham!?, torta de maçã! Comecei a ler o post que trazia a receita de bolo que comentei e não consegui mais parar. Acho que já li o blog todo e sempre passo para ver as novidades. Já fiz algumas receitas, todas maravilhosas. A Ana, como eu, tem procurado o caminho do meio, o que nos permite, inclusive, apreciar o prazer de um bom pedaço de bolo, antes proibido para mim por causa da minha saga ortomolecular...
Hoje, deixei de querer ser apenas magra: quero ser saudável, o que inclui pequenos poderes (prazeres) ocasionais para fazer bem à cabeça e ao coração...
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